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Por: Luís Eduardo, Eduarda Galdino, Lara Vasconcelos e Camila Lavine

QUANTA

MEMÓRIA

cabe em um prédio?

Para quem visita a cidade do Crato hoje, o Centro Cultural do Cariri é um destino quase indispensável quando se trata de conhecer a arte, cultura e história não só da região, como de muitas partes do mundo. Mas o que nem todo mundo sabe, principalmente quem não é da cidade ou da região, é que o prédio que hoje abriga o referido equipamento cultural tem uma história que já passa dos cem anos. Já foi uma fazenda, um seminário de uma ordem religiosa estrangeira e um hospital de referência para a região do Cariri e adjacências, tendo tido nesse período em que funcionou como equipamento de saúde um papel de destaque no combate a epidemias. Muitas trajetórias de vida se confundem com a história da edificação, e você vai conhecer algumas delas a seguir.

1946

Seminário da Sagrada Família

Por  Luís Eduardo Victor Pinheiro

O prédio localizado na Avenida Joaquim Pinheiro Bezerra de Menezes, no bairro Batateiras, Crato, foi construído pela Ordem da Sagrada Família, fundada por John Bethier na Holanda em 1895 e que chegou ao Brasil em 1910. Os sacerdotes eram popularmente conhecidos como “os padres alemães” ou “padres operários”. Com a fuga de padres da Alemanha Nazista, durante a Segunda Guerra Mundial, os religiosos percorreram de Recife, em Pernambuco, até chegar no Crato, na região do Cariri Cearense. A construção do prédio começou em 1946 e foi concluída em 1948.

A Ordem permaneceu no Cariri até o fim dos anos 1960, começando o processo de saída após a imposição do Ato Institucional n.º 5 (AI-5) pela Ditadura Militar, em 1968, que acusou os padres de conspirarem contra o regime, mas não apenas isso. Carlos Henrique Soares, supervisor do Ateliê de Artes e Ofícios do atual Centro Cultural do Cariri, relata que antes da construção do prédio, os padres passaram um certo tempo vivendo na casa que antes pertencera ao artista Vicente Leite, desenhista e pintor cratense falecido em 1941, aos 41 anos.

Segundo Carlos Henrique Soares, o Seminário da Sagrada Família foi por cerca de 20 anos a única escola acessível para a comunidade do bairro Batateiras e adjacências, o que fez com que grande parte dos alunos não estivessem de fato buscando a formação para a vida sacerdotal, mas sim apenas para conseguirem obter um estudo formal. Durante certo tempo, muitas teorias conspiratórias com intuito de difamar a imagem dos padres foram disseminadas entre a população, sobretudo ligando os padres ao nazismo, acusando-os de incorporar elementos visuais na obra que remetiam à ideologia de Adolf Hitler, como a suposição de que uma praça dentro da edificação formava uma suástica e parte do prédio, quando vista de cima, formava uma letra H.  Carlos relembra também que era frequente que alguns alunos importunassem os padres com ofensas e brincadeiras de mau gosto, como saudações nazistas. 

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1973

Hospital Manuel de Abreu 

Por  Eduarda Galdino

1973 - Inauguração do Hospital Manoel de Abreu
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Segundo relatos, pacientes vinham ao hospital para serem operados e, então, eram colocados em quartos para dormir e aguardar o horário da cirurgia. À noite, uma equipe de médicos entrava no quarto do interno e o operava, como deveria ser no dia seguinte. Quando o cirurgião, que de fato deveria realizar o procedimento, iniciava com o paciente, tinha uma surpresa! A cirurgia já havia sido realizada, da forma que deveria ser, e o paciente poderia ter alta.

Os anos 1970 representam o final do período de cinquenta anos (1920-1970) durante o qual diversas estratégias foram definidas pelo Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP) para  controle da tuberculose. O Seminário da Sagrada Família, localizado no Crato, foi transformado no Hospital Manuel de Abreu O prédio, com uma estrutura arquitetônica que permitia a vigilância dos tuberculosos, guarda registros sobre os embates de combate à enfermidade no final dos anos 1960 e início dos 1970.

Na época, a tuberculose era vista como a doença mais letal do mundo, sendo classificada como uma “doença de pobre”.

A cidade do Crato, no sul do Ceará, era vista com condições climáticas consideradas favoráveis para o tratamento da tuberculose no Sertão nordestino. Essas condições eram atribuídas à altitude perto de 500 metros acima do nível do mar, à boa umidade causada pelas muitas fontes naturais e à cobertura da floresta da Chapada do Araripe. A percepção de Crato como um local adequado para a tisiologia fazia a cidade se aproximar, pelo menos para os nordestinos, de São José dos Campos, o maior centro de Tisiologia do Brasil da época.

EPIDEMIA DE TUBERCULOSE ASSOLA O SERTÃO 

SINTOMAS DA TUBERCULOSE

FEBRE

FRAQUEZA E FADIGA

TOSSE 

DOR NO PEITO

FONTE: GLOSSÁRIO DE SAÚDE DO EINSTEN

A unidade de saúde foi criada por Humberto Macário de Brito, médico natural de Campos Sales que já foi prefeito do Crato, deputado estadual e secretário de Saúde do Estado do Ceará.  “Doutor Humberto”, como era conhecido, alugou o terreno dos padres alemães e, em 17 de fevereiro de 1973, às 10h da manhã, o Hospital Regional Manoel de Abreu foi inaugurado.

 

O evento de abertura contou com autoridades da época e apresentações artísticas, iniciando uma história que duraria mais de quatro décadas, até o fechamento em 2014. Com estrutura de 43 leitos, capacidade de mais de 100 atendimentos, contava com quatro enfermarias, centro cirúrgico, cinco consultórios, ambulatórios e Unidade de Terapia Intensiva (UTI). A unidade se consolidou como uma referência de atendimento para os municípios do sul cearense.

LEITOS FEMININOS
 

LEITOS MASCULINOS
 

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23
 

SALAS DE
CIRURGIA

 

2
 

O nome foi dado em homenagem ao Dr. Manoel de Abreu, inventor da abreugrafia ou, de forma mais conhecida, a radiografia de pulmão. A abreugrafia é o exame que captura uma imagem em raio-X dos pulmões e tórax, possibilitando o diagnóstico da tuberculose. A unidade, inicialmente, era especializada para o tratamento da doença e atendeu não só moradores do Ceará, mas também pacientes de Pernambuco e Piauí. 

 

O hospital foi credenciado ao Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) em 1974, classificado como Categoria-A, além de receber fundos do Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural, o FUNRURAL.

"HOSPITAL BEM FAMILIAR"

Sylvia Alencar de Biscuccia, secretária executiva de saúde do Crato e ex-funcionária do hospital, trabalhou na unidade de 2011 a 2014 como fisioterapeuta. Ela explica que o Crato fazia pactuações com outros municípios, para o encaminhamento de pacientes para suas unidades hospitalares, como o Manoel de Abreu. “E assim faziam concessões para que aquele serviço que está dentro do município do Crato seja também feito em outros municípios”, relata. A Programação Pactuada e Integrada (PPI) é uma ferramenta de planejamento do Sistema Único de Saúde (SUS).

Com o tempo, o hospital se tornou referência para outras áreas, como obstetrícia e odontologia, e possuía uma clínica de fisioterapia e operava cirurgias delicadas na época.

A gestora ainda  recorda de momentos em sua infância quando ia acompanhar sua mãe, também fisioterapeuta, no hospital. “Quando eu vou pro Centro Cultural sempre passa um filme. Eu vivenciei muita coisa lá quando eu era pequena. Eu vivia com a minha mãe pra lá.  É um prédio grande. A gente achava o máximo de subir lá em cima”, referindo-se à torre do relógio. 

 

“Era um hospital bem familiar de médicos conhecidos da região”, complementa Sylvia. As experiências de frequentadores do prédio e de moradores do Crato constroem uma rede memorial sobre fatos que ocorreram, mas também, histórias que ganham vida com a imaginação.

IMAGINÁRIOS POPULARES

No pensamento comum da maioria das pessoas, o prédio do Centro Cultural do Cariri era antes um hospital psiquiátrico, a Casa de Saúde Santa Teresa. A informação é incorreta e alimenta uma série de fabulações sobre o local. O Santa Teresa era localizado a 650 metros do Manuel De Abreu, tendo ambos sido criados na mesma época.

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Segundo relatos, pacientes vinham ao hospital para serem operados e, então, eram colocados em quartos para dormir e aguardar o horário da cirurgia. À noite, uma equipe de médicos entrava no quarto do interno e o operava, como deveria ser no dia seguinte. Quando o cirurgião, que de fato deveria realizar o procedimento, iniciava com o paciente, tinha uma surpresa! A cirurgia já havia sido realizada, da forma que deveria ser, e o paciente poderia ter alta.

Foto: Cariri de Cima

As semelhanças continuam, o hospital psiquiátrico foi fundado no edifício de um antigo noviciado da Congregação das Filhas de Santa Teresa, de onde daria continuidade ao nome. Segundo o jornal cratense “A Ação” de março de 1972, a criação do empreendimento do Doutor Humberto foi anunciada como Sanatório Regional Manoel de Abreu, o que talvez, o mesmo sendo voltado para o tratamento de tuberculose, tenha contribuído para a construção do imaginário. 

O HOSPITAL FECHA AS PORTAS

Após 42 anos de funcionamento, o Regional Manuel de Abreu é fechado por falta de verbas no ano de 2014 por falta de recursos. Em uma matéria do Diário do Nordeste, publicada em agosto do mesmo ano, é confirmado que havia uma dívida superior a R$ 400 mil junto a fornecedores, funcionários e impostos atrasados.
 

A imprensa repercutiu bastante o fechamento do hospital, principalmente sobre a opinião negativa da população.


“Eu acho que, foram muitos anos que ele funcionou e vai crescendo a demanda, o investimento que ele tinha, de faturação, é pouco para o custeio de um prédio tão grande como aquele.” pontua Sylvia Alencar. Ela ainda menciona que, embora as pessoas culpem a falta de verbas pelo problema de um hospital, a questão é mais complexa. “Quando o Estado comprou, não foi porque ele não queria que fosse um hospital, mas é porque eu acho que nós tínhamos aqui já outras referências, outros hospitais.”

Por seis anos o prédio permaneceu em estado de quase total inatividade, com apenas o setor de fisioterapia mantendo os atendimentos. Durante todo esse período, o cenário do terreno era de completo abandono: salas vazias, corredores silenciosos e um espaço amplo que se tornou alvo de curiosidade da população.

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Foto: Nívia Uchôa

2014
Fechamento do
hospital 

Por Lara Vasconcelos

Em 2020, as obras do Centro Cultural do Cariri (CCC) iniciaram e com elas, o projeto Prenascimento. O projeto teve apoio da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará e aconteceu por ocasião da obra que resultou no equipamento cultural. Os idealizadores do projeto, Luiz Santo e Carlos Henrique, buscavam ter “uma experiência de convivência com quem trabalhasse na obra, sobretudo as pessoas que pegam no pesado, que derrubam erguem e transformam a matéria-monumento”, afirma o texto de Luiz Santos, curador da Amostra Prenascimento. O prédio que antes abrigava religião e saúde, hoje abriga cultura. 

Dentro desses seis anos em que o prédio ficou fechado, algumas pessoas entraram no local para estudos, pesquisas e por simples curiosidade de saber como estavam as antigas estruturas do Hospital Manuel de Abreu. O ar curioso e o imaginário do local, estimulava um olhar de estrutura abandonada e mal-assombrada, com histórias que circulavam pelos ouvidos dos moradores da região. 

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O equipamento do governo foi tombado em 2017 pela administração municipal como patrimônio histórico-cultural do Crato e adquirido pelo Governo do Ceará no mesmo ano.

Arte: Gabriel Vasconcelos

Foi em 2016 que o historiador Roberto Júnior entrou no local pela primeira vez e percebeu que havia grande potencial para ser restaurado. Em suas visitas ele notou que o acesso era muito aberto e a fiscalização do local era escassa. Havia apenas um vigia, que se concentrava na parte da fisioterapia, única ala que funcionava na época em que estava fechado, e não tinha como uma pessoa sozinha controlar quem saía e entrava no local com uma área de quase 57,5 mil metros quadrados. 

A reportagem conversou com um morador que entrou no equipamento em 2017, período em que estava abandonado, movido pela curiosidade sobre o que havia dentro de uma construção grandiosa na entrada do Crato. A fonte, que não quis se identificar, estava acompanhada de colegas da escola e o grupo circulou pelo local sentindo a energia pesada que pairava no ar após o fechamento. “Era um local muito macabro. A gente gostava dessas coisas. Da primeira vez a energia era bem mais pesada lá. Sabe aquela sensação como se tivesse gente lá dentro? É muito esquisito”, relata. Apesar da energia, o morador retornou ao local uma outra vez e conta que conseguiu visitar mais alas da construção, subindo inclusive na torre na qual fica o relógio do Centro Cultural, apreciando a vista da região inteira. “Era uma visão linda, você via o Crato, via a estrutura todinha do hospital… uma coisa muito massa”, afirma. 

 

Ambos os entrevistados mencionam a falta que sentem do peso histórico carregado pelo prédio que abrigou um seminário de padres alemães e um hospital renomado. Antigamente, o hospital tinha ladrilhos e vitrais, hoje inexistentes. “Eu não vou mentir que eu sinto falta do hospital como ele era. Trazia uma energia muito diferente, o peso histórico. A beleza era muito grande. Eu acho que essa coisa de ser agora todo branco-gelo ou cinza-gelo, tirou um pouco dessa essência”, afirma o morador de Juazeiro do Norte.

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Foto: Carlos Henrique Soares

2020

Prenascimento

Por  Camila Lavine 

Em 2020, durante o processo de revitalização do terreno, os artistas Luiz Santos e o xilogravurista Carlos Henrique Soares desenvolveram o projeto “Prenascimento”. A iniciativa não estava diretamente ligada à obra de revitalização, mas sim à convivência que permeava o cotidiano dos mais de 200 operários ao longo dos meses de trabalho. Idealizado por Luiz Santos, o projeto rendeu diversos frutos, como um ensaio fotográfico com máquina lambe-lambe, a criação de ex-libris, um documentário e até uma exposição.


Luiz Santos conta que o Prenascimento simboliza propósito, a ideia de que tudo ao nosso redor pode sempre renascer. O histórico do terreno que hoje abriga o Centro Cultural foi e continua sendo erguido por muitas mãos. Em parte, pessoas cujos nomes, histórias ou papéis talvez nunca sejam conhecidos, mas que, mesmo em gestos pequenos, transformaram ruínas em vida. Inspirados nessas presenças, Luiz e Carlos iniciaram o projeto com o propósito de valorizar o trabalho dos operários que deram forma ao espaço. “O trabalhador é invisibilizado. Uma pessoa que constrói um hospital, um monumento, uma escola, uma casa, um centro cultural, no final das contas, é esquecida”, reflete Luiz.


O primeiro fruto da iniciativa foram as fotografias em lambe-lambe, registradas por Luiz. Nesse processo, todos os trabalhadores foram retratados. Ao ser questionado sobre um episódio marcante, Luiz relembra a vez em que um trabalhador pediu que ele fizesse outro retrato ou lhe desse uma cópia da foto anterior. Ao perguntar o motivo, ouviu que o retrato havia sido entregue ao pai daquele trabalhador, para que ele sentisse orgulho do filho. “Isso foi muito forte pra mim, sabe? Puxa, o poder que tem um retrato, né? Pra estabelecer uma aproximação entre duas pessoas, entre um pai e um filho”, recorda Luiz.

Com o andamento do projeto, tornou-se natural que artistas realizassem residências artísticas no espaço. A partir daí, novas colaborações surgiram e aquele ambiente, antes marcado pelo abandono, passou a cultivar cultura como tudo aquilo que nasce da convivência e da criação coletiva.

O trabalhador é invisibilizado. Uma pessoa que constrói um hospital, um monumento, uma escola, uma casa, um centro cultural, no final das contas, é esquecida

Carlos Henrique, por sua vez, enxergou arte nas madeiras da construção, na carpintaria que sustentava os espaços. Dessa forma, produziu ex-libris, pequenas gravuras ou selos que identificam a posse de um livro. A essência do ex-libris era encomendar para outra pessoa, e na brincadeira, no apreço e na convivência, foram feitos 45 ex-libris. O primeiro a receber foi Pedro Carpinteiro, que indicou Erasmo da Costa, e assim por diante. Cada entrega ressignificando o espaço e fortalecendo os laços entre os trabalhadores.

Mais tarde, Luiz relembra que, ao final da obra, ele e Carlos visitaram as casas dos trabalhadores para entregar os ex-libris e descobrir o destino das fotografias tiradas naquele período. Imortalizadas pelo lambe-lambe, as imagens eram guardadas com carinho por aqueles que haviam reerguido o espaço.  “A gente entrava no quarto, a pessoa abria a gaveta e lá estava: dentro de um livro, de um caderno, de uma caixa de sapato, dentro da Bíblia... Tinha gente que colocou na moldura, mandou ampliar”, relata Luiz.

O Prenascimento é a compreensão que a arte já estava presente no Centro Cultural antes mesmo de sua inauguração. Carlos Henrique Soares resume esse sentimento. “ Todo dia é dia de recomeço, então o centro cultural é o recomeço, ou seja, o que passou lá como hospital, o que passou lá como seminário, já passou. Cada coisa tem seu tempo, você tem seu tempo, eu tenho o meu e por aí vai, então o tempo do prédio, do seminário já passou, o tempo do hospital já passou, agora o tempo do centro cultural”, finaliza.

Foto: Luiz Santos, operários do Centro Cultural do Cariri e ex-libris de Carlos Soares

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2022

Centro Cultural do Cariri

Por: Camila Lavine

​O passado é conservado por ele mesmo, pelas lembranças de uma antiga fazenda da qual pouco se sabe sobre o dono. É rememorado em autos perpetuados nas aulas seminaristas, na lembrança dos curados e dos que passaram para outro plano. A memória não se acumula sobre a outra, mas sim ao lado, e é da memória que as narrativas entrelaçam a vida. Quase simbolicamente, o Centro Cultural do Cariri semeou cultura desde sua gestação, enxergando as pessoas que por ali passaram e as mãos que ergueram as ruínas de outros tempos.

O Centro Cultural 

De certa maneira, existir é passar de um estado a outro. É existindo, transformando-se e recomeçando que o Centro Cultural do Cariri Sérvulo Esmeraldo abriu suas portas em 1º de abril de 2022, iniciando um novo capítulo na trajetória deste terreno. Hoje, o espaço se afirma como um polo de fomento à arte, à cultura, à tradição, à educação e às ciências, reunindo práticas que dialogam com o passado e projetam o futuro da região. O Centro integra a Rede de Equipamentos Culturais do Estado do Ceará (Rece), abrangendo os 29 municípios que compõem o Cariri.

O espaço externo, revitalizado durante a construção, preservou árvores antigas do terreno e recebeu novos plantios. Destaca-se por uma ampla área verde, que conta com espaços de lazer, pista de skate, areninha de futebol, quadras de areia, brinquedopraça e um planetário atualmente em fase de construção. Na área interna, o Centro abriga um teatro, residências artísticas, rádio escola, salas de formação, palco para espetáculos, espaço para projeções de cinema, ateliê de artes e ofícios, além de galerias destinadas a exposições artísticas.

 

Sob a gestão do Instituto Mirante de Cultura e Arte, o equipamento é estruturado por diferentes gerências que, juntas, garantem o seu funcionamento, atuando de forma integrada, colaborativa e conectada. Dessa maneira, quatro gerências estão em atividade: Teatro; Ação Cultural; Formação, Livro e Leitura; e Patrimônio Cultural e Memória. Além delas, a gestão conta com setores como Comunicação e Infraestrutura e Operacional. O funcionamento ocorre de quinta a domingo, durante a semana, das 15h às 20h; e aos sábados e domingos, das 8h às 20h.

Janelas da memória

Entre corredores e janelas, as lembranças guardadas nas gavetas da memória voltam à tona. Para quem hoje trabalha no equipamento, cada canto carrega um pedaço de outras eras.

Carlos Henrique explica que sua memória a respeito do terreno é muito forte, faz lembrar das gerações da sua família que passaram por ali: um irmão que morava com a companheira, o período em que trabalhou com carpinteiros, quando o local ainda era hospital, e até o tempo em que ele próprio esteve internado no Manoel de Abreu. Quando o terreno ficou abandonado, ele recorda que o filho também frequentava o espaço. De forma curiosa, sua história e trajetória se entrelaçaram à do lugar. Hoje, como supervisor de Artes e Ofícios, Carlos destaca a importância do equipamento e da memória que se ressignificou. “Pra que serve um hospital? Pra tratar doença. E pra que serve um centro cultural? Pra evitar que as pessoas adoeçam”, explica.

 

Nas descobertas e conexões que atravessam o espaço, Levi Brito, supervisor de Obras, conta que também teve sua trajetória marcada pelas várias fases do prédio. Nascido na maternidade do Manoel de Abreu, sua mãe trabalhou no hospital. Durante a graduação em Engenharia Civil, ele estagiou na revitalização da obra, sendo um dos primeiros a entrar no prédio para fazer o reconhecimento do local. Hoje, sente alegria por ter participado da revitalização e, agora, trabalhar ali. “Depois eu comecei a trabalhar lá. Teve um dia que eu tava conversando com o meu chefe, ele saiu, e eu fiquei no corredor. Tava tocando musiquinha na rádio, o corredorzinho todo arborizado e eu comecei a chorar… e eu me sinto muito realizado”, lembra Levi.

Jéssika Kariri, coordenadora de Ação Cultural, também sente essas marcas. Das memórias que guarda, lembra das consultas na infância, quando o prédio ainda era hospital, e das passagens diárias durante a reforma em 2020, quando imaginava que aquele espaço, um dia, poderia ser também um recomeço para os artistas do Cariri. Hoje, como artista e coordenadora, ela enxerga o Centro como um lugar de difusão de cultura e territorialidade. “Compreender quais caminhos criar para que o Centro fosse percebido como parte do território, e não como um equipamento estranho, foi um processo de construção e escuta, que também se refletiu na formação da nossa equipe”, explica.

Entre o que foi seminário, hospital, terreno abandonado e Centro Cultural, o tempo segue abrindo novas portas. Há sempre algo a ser redescoberto nas histórias de quem passou por ali e nas vidas que, assim como o próprio prédio, continuam em movimento, reinventando-se a cada dia.

Fotos: Luiz Santos, Camila Lavine e Carlos Soares

FICHA TÉCNICA

 

Equipe:

Luís Eduardo 

Maria Eduarda Galdino

Lara Vasconcelos

Camila Lavine 

Reportagem multimídia apresentada na disciplina de

Jornalismo Digital II | 5º semestre | 2025

Ivan Satuf

Professor Orientador

Hanna Menezes

Suporte Técnico

 

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